Angola...Ficam as boas experiências
- 18 de out. de 2016
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Estava o verão a começar quando, de repente somos desafiados para abraçar um projeto de algumas semanas, e vemo-nos de malas e bagagens a caminho de outro país. Um país que tem tanto de desconhecido como de excitante, e que nos provoca um misto de ansiedade e de expectativa. No fundo acreditamos em nós, e sabemos que vai tudo correr bem, mas é como caminhar para o desconhecido…
Ao aterrar em Luanda a Baía dá-nos as boas-vindas com toda a sua beleza. Após recolher as malas, e depois de já termos passado a alfândega, vislumbramos uma folha branca, com as palavras “Escola de Hotelaria de Lisboa”, nas mãos de uma Senhora com ar tranquilo e sorridente – Paula Ribeiro da Cunha, a guerreira que nos iria guiar nesta surpreendente aventura. Mais à frente conhecemos o restante staff – o João, o Manuel, o Vincent e claro… o Sr. Zeca, o nosso motorista.
Saímos do aeroporto e percorremos as ruas que nos levavam à nossa “casa” para este período das nossas vidas. As primeiras impressões foram de um país em obras, onde a própria cidade de Luanda é um estaleiro quase permanente. A tela do quadro atual de Angola não é pintada a pastel de tons suaves, mas sim pela pobreza, pelo sofrimento e pela submissão do povo que, apesar de tudo, é alegre e, muitas vezes, canta com vontade de chorar… A realidade é muito cruel. Milhares de famílias sem o mínimo de condições básicas de sobrevivência. Mas mesmo com a constatação desta realidade, e sem capacidade para mudar o mundo, a nossa missão aqui era outra…
Durante a primeira semana, os dias voaram. Encontrámos jovens cheios de vontade de aprender e sedentos de conhecimento, vindos de diversos bairros, e reunidos ali em Talatona. Nos primeiros dias, rostos fechados e sofridos que, ao longo da semana, foram dando lugar a sorrisos radiantes e com confiança no futuro. E mal tínhamos conhecido os nossos primeiros grupos, aí estava o fim-de-semana…
Após cinco dias de clausura, comemorámos a primeira saída à rua e fizemos uma visita pela cidade de Luanda. Naturalmente que não estávamos à espera de encontrar grandes exemplares de beleza natural em Luanda. A capital angolana tem características próprias de qualquer grande cidade africana, com muita desordem demográfica e sanitária, e depressa ficámos familiarizadas com o país dos contrastes… De um lado a cidade alta, povoada por embaixadas, edifícios governamentais e vivendas de luxo. Logo ali ao lado, os musseques e a triste realidade em que vive a maior parte da população. Ah mundo cão… Tanta miséria, tanto lixo, tanto esgoto a contrastar com tanta ostentação…

Para compensar, desfrutámos de uma tarde na Ilha do Cabo, numa deliciosa esplanada junto à praia, onde não precisamos sair do lugar para comprar tecidos, roupas africanas, artesanato angolano, cajus, amendoins, etc., etc., etc.. Um pôr-do-sol magnífico e um passeio a pé pela Baía de Luanda serviram para terminar o nosso fim-de-semana. Na verdade nós estávamos ali como pessoas ricas… Tínhamos comida nas três principais refeições diárias, um colchão confortável para dormir, água quente para os banhos, água potável para beber, carro com motorista, e até nos dávamos ao luxo de reclamar por não ter televisão ou simplesmente por a internet falhar…
E outra semana começou…
O caminho até Viana é uma verdadeira aventura. São apenas 20km, que parecem 100, já que para os percorrer precisamos de 1h30, pela via expresso, onde três faixas de rodagem se desdobram em cinco ou seis, completamente desalinhadas, onde os candongueiros e os camionistas se atravessam sem olhar para quem vem… medo!!!... Mas nada que o Sr. Zeca não consiga superar… Além do trânsito, há que contar com os “comerciantes” que atravessam a via, na esperança dos condutores precisarem comprar algo. Ali tudo se vende: cabos de dados, carregadores de telemóvel, cartões de saldo, boias para a praia, fruta, paracuca, bebidas, bonecos, tampos de sanita, etc., etc., etc. Um verdadeiro mercado ambulante, onde os vendedores vão deambulando por entre o caos do trânsito, fazendo de tudo para sobreviver no mais rico país africano, e sempre cheios de energia, trabalhando de sol a sol, sem condições, sem pausas e, muitas vezes, carregando os filhos às costas.

Mais uma vez encontrámos rostos fechados, sofridos e submissos, embora menos tensos do que em Talatona, e que ao longo da semana foram aprendendo a sorrir sem medos e sem culpas.
Foi uma semana entre esta realidade e algumas idas a diferentes supermercados onde há tudo o que há em Portugal, com a mesma qualidade e variedade, mas a preços incomportáveis para a maioria da população. Não será exagero afirmar que qualquer produto (alimentar ou não alimentar) tem um preço três ou quatro vezes superior ao nosso, num país onde o salário mínimo nacional talvez seja um terço do português…
Uma semana que terminou com alegria nos rostos, com um lanche partilhado, com música e com uma demonstração de danças sensuais e provocadoras…
E um novo fim-de-semana chegava.
Desta vez sentimos que quem nos acompanhava o fazia de coração. A Paula, o João e a Sandra levaram-nos conhecer o tão esperado Miradouro da Lua.

Um verdadeiro fenómeno da natureza. Uma imensidão de falésias, compostas por formações arenosas e coloridas, onde estão bem visíveis as marcas da erosão, fazendo lembrar as paisagens lunares, que se estendem até ao oceano. Após alguns minutos de contemplação de tamanha beleza natural, seguimos caminho e voltámos a parar depois da ponte de liga as duas margens da barra do Kwanza.

Ali, onde já se encontra muita vegetação, os macacos saltam de árvore em árvore e aproximam-se da berma quando pressentem a existência de bananas. Um carro passa e avisa que neste local ainda podem existir minas terrestres. Ninguém ultrapassa o alcatrão. Uns minutos de convivência com os primatas e continuamos rumo ao destino final.
Abandonamos a estrada e entramos num caminho de terra batida que nos guia por entre alguns pequenos morros de casas de onde saem crianças felizes para nos saudar. Metros à frente, um verdadeiro paraíso – Cabo Ledo, uma longa enseada de praias de areia branca e águas límpidas. Um local deslumbrante onde, no final de uma semana intensa, conseguimos encontrar a paz e o relaxamento tão necessários para recarregar baterias.

Ao final do dia, regressamos a Luanda e no dia seguinte fazemos a nossa primeira visita ao Mercado de Benfica. Aqui sentimos África! Aqui encontramos tecidos e artesanato típico de diversas etnias. Esculturas como O Caçador, O Pescador ou A Mamã estão na lista dos mais tradicionais, ao lado das máscaras Mwana-Pwo. Mas o verdadeiro ícone do artesanato angolano é O Pensador Tchokwe, criado por um artesão na altura em que a guerra tirava a paz às pessoas (uma figura masculina que, desolada, apreensiva, pensativa e sentada com as mãos na cabeça, suplicava para a guerra acabar).
De Talatona até Cacuaco, percorrendo o mesmo caminho de Viana, o que vislumbramos é uma paisagem árida. Um poeirão. Gente, gente e mais gente. Um trânsito caótico. Bairros chineses. Construções chinesas. Candongueiros. Moto-táxis. E muita gente a vender um pão enorme, a que se dá o nome de mata-enteado…
As pessoas em Cacuaco não parecem passar tantas necessidades, embora apresentem um semblante mais carregado. O trabalho que desenvolvemos para alterar este estado tem que ser mais assertivo, mas lá vamos conseguindo levar a água ao nosso moinho, terminando a semana com sorrisos radiantes e com tanto para nos dar. No último dia juntámos os dois grupos em Viana e fizemos um almoço de encerramento de mais uma semana.

Mais ou menos a 100km de Luanda começa a Reserva Natural do Parque Nacional do Kissama. Saímos cedo, e depois dos 100km de alcatrão, lá fizemos mais 30km em estradas de terra batida, que nos levaram ao parque. O parque não aceita reservas, ninguém sabe muito bem porquê. Talvez porque ainda não estejam focados no seu potencial turístico. Talvez porque ainda não tenham percebido que têm ali uma boa fonte de rendimento. Bastava conseguirem organizar-se e explorar o mercado. Dentro do parque há um restaurante, também este pouco focado. Refeições só se reservadas com horas de antecedência e, não havendo reserva, não existe sequer uma alternativa de snacks ou sandes. Acabámos por “almoçar” um pão com manteiga e um refrigerante…

A contrastar com a falta de serviço turístico, conseguimos encontrar um extenso vale verde e húmido, repleto de vida, onde os nossos olhos se rendem a tamanha beleza. Por entre nós circulam macaquinhos à procura de uma pequena distração nossa, para nos roubarem uma banana… E, acompanhados por um guia, lá partimos para o safari. Tínhamos alguma esperança de encontrar as zebras e de ver os elefantes, nem que fosse ao longe. Conseguimos cruzar-nos com as girafas, os gnus, os veados e umas galinhas africanas, e desfrutar de paisagens deslumbrantes e de embondeiros carregados de múcuas.

O embondeiro, também ele um símbolo de Angola, é uma árvore emblemática, que pode viver até seis mil anos, e que nos trouxe à memória a queda do Principezinho, de Saint Exupery, na terra.
Entrar e sair de Angola também é uma questão delicada. É preciso um certificado internacional de vacinação contra a febre-amarela, a apresentação de um extrato de conta bancária e um visto que só é emitido se existir uma carta convite emitida por um cidadão angolano. Ora… Para um país onde estão para abrir dezenas de novos hotéis (o que nos leva a crer que há um interesse crescente em desenvolver o setor do turismo), talvez fosse melhor repensar as políticas de entrada no país.
Permanecer em Angola é um misto se sentimentos. Em Angola lamentei, enalteci, rejubilei e agradeci…
Lamentei o abismo social. Lamentei as condições de vida e a fome por todo o lado.
Enalteci um povo sofrido tentando viver a vida de forma alegre e bem-humorada. Enalteci o reflexo da colonização nos edifícios recuperados, no idioma, na culinária.
Rejubilei ao conhecer tantas pessoas para quem um nada é quase tudo, que se alegram com tão pouco e que, mesmo assim são felizes.
Hoje, três semanas após o meu regresso, olho para o carimbo do meu passaporte e reconheço nesta viagem mais uma experiência de vida enriquecedora e inesquecível, povoada de pessoas que jamais esquecerei.
Acredito que deixei um pouco de mim, mas trouxe muito mais de todos quantos conheci!

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